terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Mailtom, amigo de fé, irmão camarada

MAILTOM
Esse é o meu irmão Mailtom. É dia de primeira comunhão. Naquele tempo nos vestiam com uma calça e blusa social, com direito a essa gravatinha ridícula que se vê na foto.

Passei algum tempo no colégio interno com o meu irmão. "Instituto Ana Gonzaga", esse era o nome do internato. Fui prá lá com 9 anos de idade. Meu irmão Mailtom já estava lá. Minha mãe vinha nos visitar de 15 em 15 dias. A vida no internato não é fácil e pode deixar lembranças tristes que marcam para toda a vida.

Na verdade, quando minha mãe levou-me ao internato eu não sabia sua verdadeira intenção. Lembro-me que ela conversava longamente com uma pessoa que veio nos atender. Por um instante apareceu uma senhora, dizendo que me levaria num parque. Aceitei o convite. Dei a mão a senhora e ela me levava a um parquinho que ficava próximo a recepção, quando minha mãe
terminasse de conversar me chamaria.
Não foi isso que aconteceu. Minha mãe foi embora, nem sequer me disse adeus. A tarde passou depressa, e quando dei por mim estava cansado de brincar. Perguntei pela minha mãe e me disseram que ela havia ido embora. Não acreditei, chorei muito. A ladeira que separava o colégio interno da Av. Cesário de Mello, foi o espaço que consegui correr, num esforço vão de reencontrar a minha mãe. Não queria acreditar que ela tivesse ido embora. senti a mão de um inspetor no meu braço...Me puxava e eu não tinha mais forças para resistir.
-Vamos! - Eu não dizia nada...só queria chorar. Soluçava ,soluçava...Aquele pequeno menino de apenas 9 anos não conseguia entender o que se passava e...desfalecia. O sentimento de perda o fizera desmaiar de cansaço.

Veio a tarde e o meu irmão chegava da escola. Quando me viu se abalou. eu tinha os olhos vermelhos e não parava de chorar. Ele coitado, já se acostumara a realidade do internato, mas quando me viu chorava junto comigo, não resistia me ver chorar. Tentava me consolar: - Final de semana mamãe vem nos visitar.- Quanto mais chorava, mais crianças rodeavam-me... Tudo foi muito rápido, não houve nenhuma preparação.

A partir daquele dia eu não conseguia aceitar a idéia de estar alí. Na verdade eu nunca me conformei. A cada visita da minha mãe, a esperança de ir definitivamente para casa aumentava desesperadamente. As visitas eram por demais esperada. Lembro-me que as crianças praticavam um estranho ritual nesse dia. Tomávamos café pela manhã, depois iamos para o pátio brincar; depois o almoço, o descanso, e a tarde a esperança de ser visitado, de ver novamente o rosto da mãe; a alegria de quando chamavam nosso nome: - Mailtom e Marcelo ! Estávamos pronto. será que seria prá nos levar embora, prá sempre ?

O ritual que me refiro é o seguinte: As crianças se reuniam em dia de visitas e diziam que, teríamos de puxar uma única vez os cabelinhos da sobrancelha. Se com o puxão conseguissemos arrancar um único cabelo, era sinal que a nossa mãe viria, caso contrário nada feito. Só sei dizer que quando os pais chegavam para visitar as crianças, as mesmas estavam sem cabelo nenhum na sobrancelha. É claro que essa última parte é piada, mas o ritual existia mesm
CABEÇÃO GE
Um episódio bem pitoresco acontecia a noite. Depois da janta a criançada ficava brincando em um pátio que ficava abaixo do dormitório, único lugar iluminado do Ana Gonzaga, o resto era puro breu, não se enxergava nada.
O único bebedouro que existia ficava em um corredor escuro, espaço entre o pátio e o refeitório. A criançada quando queria beber água ia em grupo,era mais seguro. No silêncio da noite fria e macabra, durante o trajeto para se saciar a sede, só se ouvia o bater das asas dos morcegos gigantes com seus voos rasantes, que se não tomássemos cuidado éramos atingidos como vítimas de kamikazes.
Eram mais ou menos um grupo de 8 a 10 crianças que iam saciar a sede. Quando chegávamos ao final do trajeto, saciávamos a sede com pressa, para não perder o grupo na volta. Só que, nesse momento, um engraçadinho, que já havia bebido água; grita bem alto e sai correndo disparado:
-É o Cabeção GE!!!! - Quem bebeu água bebeu, quem não bebeu fica com sede ou espera o novo bonde- É um tal de criança chorar, correr, gritar de pavor, que não se faz idéia.
Depois de algum tempo é que descobri que, o nome "Cabeção GE" era devido as lampadas de marca GE; o formato da lampada sugere uma cabeça grande.

CAVEIRA NA CAMA


Depois de brincar no pátio a criançada ia dormir. subíamos em fileira a escada que dá para o dormitório acima do pátio. Era dado uma ordem para que todos fossem ao banheiro antes de se deitar, e depois as luzes se apagavam. Naquele imenso dormitório, com mais de 200 camas, não se via nada à dois palmos do nariz. O medo de dormir com a luz apagada e sozinho me fez ver coisas. Imaginei a figura de uma caveira- àquela tradicional, dois ossos cruzados e a cabeça em cima- na cabeceira da minha cama, e o pior ela conversava comigo: - Vou puxar sua perna! - Eu mentalmente respondia : - Não! - E procurava me cobrir todo... Derrepente eu corri até a cama do meu irmão, que ficava na outra metade do dormitório, puxei o cobertor e dormi lá.
Quando amanheceu, o inspetor Elias, que tinha o hábito de acordar com uma correiada no lombo de quem ainda estivesse dormido, me perguntou: - Que fazes aí? - Respondi: É que tinha uma caveira na minha cama!

CAÇA AOS BICHOS
Havia chegado um novo inspetor no colégio. Depois do almoço ele ficou responsável pela turma de crianças . O cara era chegado tudo que é bicho. Pediu que todos andassem à vontade e pegassem os bichos que quizessem e colocassem dentro de um vidro. Assim foi. A criançada começou a caçar. No final da tarde todos tinham algum bicho dentro dos vidros: besouros, largatas, grilos, galfanhotos, sapos e até uma cobra pequena conseguiram pegar.

A noite chegou e depois da janta era dia de culto na igrejinha que fica no alto de uma ladeira.Outro inspetor, o Sr. Cosme era o responsável à conduzir a criançada em fila para a capela.

- Agora iremos em silêncio para o culto. Quem ainda tem algum bicho guardado no bolso do macacão, quando passar pelo cesto de lixo joga fora. Haviam mais de 50 crianças naquela noite e o cesto de lixo, aqueles de 50 litros não foi o suficiente para conter a quantidade de insetos dentro de vidros, caixas de fósforos etc. O inspetor não esperava que a criançada em massa fosse guardar tanta bicharada no bolso, e cada vez que se descartava um bicho a cara de surpresa dele era fatal: - Que isso meu Deus ?

O GORILA QUE ATACOU UMA GRÁVIDA E COMEU A CRIANÇA

Era um dia chuvoso. Meu irmão Mailtom estudava na escola pública fora do internato e voltava à tarde. Nesse dia, falaram que a demora das crianças em retornar das aulas, devia-se a um gorila que fugiu do zoológico e atacou uma mulher grávida próximo ao instituto. Mas tarde, quando a criançada finalmente retornou, me deram a seguinte notícia: O vigia do Ana Gonzaga já havia matado o gorila com um tiro de espingarda.

Depois é que fiquei sabendo que, essa história foi inventada, para que todos ficassem com medo de sair dos limites da instituição.

COUVE COM FEIJÃO

Tinha dias em que o almoço era Couve com feijão e arroz. A couve vinha separada, e aquele cheiro de couve mal cozida me enjoava. Várias vezes deixava a couve de lado e comia o restante da comida. Certo dia, o representante da mesa, no refeitório, me obrigou a comer a couve toda. Pediu que eu enchesse a colher e engolisse de uma vez só. O resultado é que vomitei tudo de volta e fui parar na enfermaria. Eu gosto de couve, mas não mal cozida. Hoje em dia, sempre que entro em algum restaurante para almoçar e sinto o cheirom da couve, logo me vem a lembrança do colégio interno.
OS IRMÃOS BOBINHOS

No Instituto Ana Gonzaga era assim: Os mais fracos apanhavam e ficava por isso mesmo. Os bobinhos- como eram chamados- eram um desses chamados"fracos". Eram crianças dóceis, mal falavam, viviam deslocados . Quando o inspetor chamava à todos para formar a fila, o simples fato de se atrazarem era motivo de cada um levar um safanão daqueles de estalar na cabeça. Os coitados projetavam o corpo prá frente por causa da pancada, levavam a mão na cabeça...suportavam a dor por alguns instantes e, engolindo o choro entravam na fila.

Naquela fila com mais de 50 crianças, ninguém ousava falar nada. A covardia rolava solta. Na hora da recreação, eles ficavam isolados, sentados juntinhos, como que se protegendo um ao outro. Um dia desses eu me aproximei, sentei-me ao lado deles. Levava comigo um livro de estórinhas. - Quer que eu leia para vocês ? - Pude reparar que os olhinhos deles brilhavam. Era a primeira vez que uma criança se aproximava deles. Sentiram-se importante, sentei-me à frente deles e comecei a contar a estória que as figuras do livro mostravam. Na verdade, para cada figura, eu inventava uma situação, pois ainda não sabia ler. menti a eles. Achavam que tudo que lhes narrava estava registrado naquele livro.
Pela primeira vez pude ver o sorriso no rosto dos irmãos bobinhos.
É certo que eu ainda era uma criança, mas a cada dia que passava , ficava mais difícil de aceitar calado as violências praticadas. Por causa da minha indignação, passei a ser a criança que mais apanhava no colégio, e isso me tornava mais "folgado" aos olhos dos internos mais adultos. Sei que essas lembranças me são dolorosas, mais sinto que tenho que contá-las. Aos pouco lhes contarei, por enquanto deixo como está.

Meu Pai


Foto do meu pai com dedicatória no verso
Esse da foto é o meu pai. Ela deve ter sido tirada, creio eu, por volta dos anos 60 e 70. No verso tem uma dedicatória. Alguém chamado Antonio mandou essa foto da paraíba para o meu pai, com recomendações à minha mãe. Reparando melhor noto que o semblante do meu pai se parece muito com o do meu irmão Mailtom, parece demais. Qualquer dia desse pergunto ao meu pai a origem correta dessa foto e torno a postar aqui.
Noto que é interessante apreciar a foto do meu pai, mais novo. Lembro-me que ele também já teve a minha idade. Sei que ele sua família é da paraíba, rodou o Brasil quando serviu na Marinha, esteve no Rio Grande do Norte ,e que casou-se com minha mãe que é capixaba. Volto aqui com mais detalhes, por enquanto deixo como está.

Cidade Alta

Nessa foto estão da esquerda para direita: Minha mãe, meu pai, no colo dele uma criança que não me lembro quem é, após, vem a minha irmã Neuma segurando ao colo minha irmã Wanuza. Esse é o quarto do apartamento em que eu morava com a minha família. Naquele tempo era comum usar um quarto como sala de jantar. Reparem na janela ainda de madeira. Dá saudades desse tempo. Vou chutar uns 30 à 35 anos essa foto. Eu devia ter uns 12 anos. Minha família morava na Favela da Maré, Nova Holanda, antes de ir para a Cidade Alta. A ida prá lá ficou por conta da remoção de favelas que aconteceu durante o governo Lacerda, final dos anos 60 e início dos anos 70. Minha primeira e única namorada e esposa conheci na Cidade Alta. Ela veio com a remoção que aconteceu na Favela do Pinto, no Leblom, onde hoje se encontra o luxuoso conjunto habitacional conhecido como "Selva de Pedra".
Posso dizer com toda certeza que, os anos 70 na Cidade Alta foram os melhores da minha juventude. A magia dos anos 70 trazia muita fascinação. Era um tempo onde tudo era diferente; a música, os bailes, as ruas, a primeira namorada...

Lembro-me dos bailes no Idependente de Cordovil. A quadra de escola de samba promovia todos os finais de semana um baile com as músicas da época. Lembro-me dos rapazes pulando o muro do independente para poder entrar sem pagar. De minha parte, lembro-me que pulei uma vez, mas os seguranças me colocarampara fora. Todos esperavam impacientemente a hora da música lenta. Chamar alguém para dançar era um passo grande para "uma curtida". Meu cabelo era longo, parecia um índio, e por conta disso alguns babacas se confundiam e me chamavam para dançar...
Falta muito a falar . Volto aqui para falar do Cacareco, Mirim, Porão do edifício Irajá e outras coisas mais...