MAILTOMEsse é o meu irmão Mailtom. É dia de primeira comunhão. Naquele tempo nos vestiam com uma calça e blusa social, com direito a essa gravatinha ridícula que se vê na foto.
Passei algum tempo no colégio interno com o meu irmão. "Instituto Ana Gonzaga", esse era o nome do internato. Fui prá lá com 9 anos de idade. Meu irmão Mailtom já estava lá. Minha mãe vinha nos visitar de 15 em 15 dias. A vida no internato não é fácil e pode deixar lembranças tristes que marcam para toda a vida.
Na verdade, quando minha mãe levou-me ao internato eu não sabia sua verdadeira intenção. Lembro-me que ela conversava longamente com uma pessoa que veio nos atender. Por um instante apareceu uma senhora, dizendo que me levaria num parque. Aceitei o convite. Dei a mão a senhora e ela me levava a um parquinho que ficava próximo a recepção, quando minha mãe

Não foi isso que aconteceu. Minha mãe foi embora, nem sequer me disse adeus. A tarde passou depressa, e quando dei por mim estava cansado de brincar. Perguntei pela minha mãe e me disseram que ela havia ido embora. Não acreditei, chorei muito. A ladeira que separava o colégio interno da Av. Cesário de Mello, foi o espaço que consegui correr, num esforço vão de reencontrar a minha mãe. Não queria acreditar que ela tivesse ido embora. senti a mão de um inspetor no meu braço...Me puxava e eu não tinha mais forças para resistir.
-Vamos! - Eu não dizia nada...só queria chorar. Soluçava ,soluçava...Aquele pequeno menino de apenas 9 anos não conseguia entender o que se passava e...desfalecia. O sentimento de perda o fizera desmaiar de cansaço.
Veio a tarde e o meu irmão chegava da escola. Quando me viu se abalou. eu tinha os olhos vermelhos e não parava de chorar. Ele coitado, já se acostumara a realidade do internato, mas quando me viu chorava junto comigo, não resistia me ver chorar. Tentava me consolar: - Final de semana mamãe vem nos visitar.- Quanto mais chorava, mais crianças rodeavam-me... Tudo foi muito rápido, não houve nenhuma preparação.
A partir daquele dia eu não conseguia aceitar a idéia de estar alí. Na verdade eu nunca me conformei. A cada visita da minha mãe, a esperança de ir definitivamente para casa aumentava desesperadamente. As visitas eram por demais esperada. Lembro-me que as crianças praticavam um estranho ritual nesse dia. Tomávamos café pela manhã, depois iamos para o pátio brincar; depois o almoço, o descanso, e a tarde a esperança de ser visitado, de ver novamente o rosto da mãe; a alegria de quando chamavam nosso nome: - Mailtom e Marcelo ! Estávamos pronto. será que seria prá nos levar embora, prá sempre ?
O ritual que me refiro é o seguinte: As crianças se reuniam em dia de visitas e diziam que, teríamos de puxar uma única vez os cabelinhos da sobrancelha. Se com o puxão conseguissemos arrancar um único cabelo, era sinal que a nossa mãe viria, caso contrário nada feito. Só sei dizer que quando os pais chegavam para visitar as crianças, as mesmas estavam sem cabelo nenhum na sobrancelha. É claro que essa última parte é piada, mas o ritual existia mesm
Um episódio bem pitoresco acontecia a noite. Depois da janta a criançada ficava brincando em um pátio que ficava abaixo do dormitório, único lugar iluminado do Ana Gonzaga, o resto era puro breu, não se enxergava nada.
O único bebedouro que existia ficava em um corredor escuro, espaço entre o pátio e o refeitório. A criançada quando queria beber água ia em grupo,era mais seguro. No silêncio da noite fria e macabra, durante o trajeto para se saciar a sede, só se ouvia o bater das asas dos morcegos gigantes com seus voos rasantes, que se não tomássemos cuidado éramos atingidos como vítimas de kamikazes.
Depois de brincar no pátio a criançada ia dormir. subíamos em fileira a escada que dá para o dormitório acima do pátio. Era dado uma ordem para que todos fossem ao banheiro antes de se deitar, e depois as luzes se apagavam. Naquele imenso dormitório, com mais de 200 camas, não se via nada à dois palmos do nariz. O medo de dormir com a luz apagada e sozinho me fez ver coisas. Imaginei a figura de uma caveira- àquela tradicional, dois ossos cruzados e a cabeça em cima- na cabeceira da minha cama, e o pior ela conversava comigo: - Vou puxar sua perna! - Eu mentalmente respondia : - Não! - E procurava me cobrir todo... Derrepente eu corri até a cama do meu irmão, que ficava na outra metade do dormitório, puxei o cobertor e dormi lá.
Quando amanheceu, o inspetor Elias, que tinha o hábito de acordar com uma correiada no lombo de quem ainda estivesse dormido, me perguntou: - Que fazes aí? - Respondi: É que tinha uma caveira na minha cama!
CAÇA AOS BICHOSHavia chegado um novo inspetor no colégio. Depois do almoço ele ficou responsável pela turma de crianças . O cara era chegado tudo que é bicho. Pediu que todos andassem à vontade e pegassem os bichos que quizessem e colocassem dentro de um vidro. Assim foi. A criançada começou a caçar. No final da tarde todos tinham algum bicho dentro dos vidros: besouros, largatas, grilos, galfanhotos, sapos e até uma cobra pequena conseguiram pegar.
A noite chegou e depois da janta era dia de culto na igrejinha que fica no alto de uma ladeira.Outro inspetor, o Sr. Cosme era o responsável à conduzir a criançada em fila para a capela.
- Agora iremos em silêncio para o culto. Quem ainda tem algum bicho guardado no bolso do macacão, quando passar pelo cesto de lixo joga fora. Haviam mais de 50 crianças naquela noite e o cesto de lixo, aqueles de 50 litros não foi o suficiente para conter a quantidade de insetos dentro de vidros, caixas de fósforos etc. O inspetor não esperava que a criançada em massa fosse guardar tanta bicharada no bolso, e cada vez que se descartava um bicho a cara de surpresa dele era fatal: - Que isso meu Deus ?Tinha dias em que o almoço era Couve com feijão e arroz. A couve vinha separada, e aquele cheiro de couve mal cozida me enjoava. Várias vezes deixava a couve de lado e comia o restante da comida. Certo dia, o representante da mesa, no refeitório, me obrigou a comer a couve toda. Pediu que eu enchesse a colher e engolisse de uma vez só. O resultado é que vomitei tudo de volta e fui parar na enfermaria. Eu gosto de couve, mas não mal cozida. Hoje em dia, sempre que entro em algum restaurante para almoçar e sinto o cheirom da couve, logo me vem a lembrança do colégio interno.OS IRMÃOS BOBINHOS
No Instituto Ana Gonzaga era assim: Os mais fracos apanhavam e ficava por isso mesmo. Os bobinhos- como eram chamados- eram um desses chamados"fracos". Eram crianças dóceis, mal falavam, viviam deslocados . Quando o inspetor chamava à todos para formar a fila, o simples fato de se atrazarem era motivo de cada um levar um safanão daqueles de estalar na cabeça. Os coitados projetavam o corpo prá frente por causa da pancada, levavam a mão na cabeça...suportavam a dor por alguns instantes e, engolindo o choro entravam na fila.


